Então que, pra quem não leu o post de algumas semanas atrás, eu tive a brilhante idéia de fazer a minha primeira tatuagem. Porque sempre quis, porque vou fazer 30, porque seria um marco, porque quis me dar de presente. Fui e quase morri. Doeu, melou, inchou, babou, sangrou, rasgou. E, fora dos planos iniciais, o tatuador só conseguiu fazer o risco, meio que meia boca porque eu estava sentindo muita dor. E me pediu para voltar assim que cicatrizasse. Me deu um nome de anestésico e todas as orientações para passar no dia que tivesse que voltar. E eu fui para casa feliz da vida.
Daí que eu passei a semana plastificada, passando pomadinha 3 vezes por dia e cheia dos frufrus. Meu pai veio no "olha que superlegal" enfiando o dedão onde não podia antes que eu desse qualquer grito - já que ele conhece a própria cria e se adiantou. E assim passei a semana, chocando meu desenho nas costas como se fosse um ovo. Até o sábado seguinte.
Anestésico comprado, eu passei as primeiras horas do dia completamente muda, enquanto a tia espalhava aquele treco em mim e a prima olhava. E eu fui para o estúdio como se fosse uma múmia. Múmia não, que múmia já morreu. Eu fui mesmo como um porquinho que vai para o abate: pensativo, cabisbaixo, com a vida passando diante do nariz. Com o agravante de, mesmo com as costas cheias de pomada anestésica, eu ainda sentir tudo o que encostasse em mim. 'Pronto, gastei maior grana com essa merda e ainda vou sentir dor igual', era o que eu pensava.
Olhei para os manobristas do estacionamento como que pedindo piedade. Andei pelo corredor da entrada do estúdio como quem vai para a forca. Faltava só fazer um testamento. E, enquanto eu pensava que não teria mais tempo para lamúrias internas, Paulinha, a mocinha com dreads da recepção, avisou que o Fernando ainda não havia chegado.
Não sei vocês, mas sempre que eu preciso fazer alguma coisa terrível, prefiro que seja logo. Eu não gosto de ficar sofrendo tipo aquele povo do Jogos Mortais não. Queeêê desvendar jogo o escambau! Eu vou ficar sentada aqui e que apressem a minha morte logo e pronto! O-DE-I-O com todas as minhas forças situações que se arrastam pelo tempo e que me fazem ficar mais ansiosa a cada minuto que passa. Pois foi assim. Passada uma hora de espera, eu pensando no anestésico que nem faria mais efeito, a tia apostando que o cara estava dormindo ainda, a Paulinha dizendo que ele acordava 6 horas da manhã todo dia. E o cara não atendia telefone nenhum. Foi God, pensei comigo mesma. God está me dando um sinal: corra, filha, corra para as montanhas e se salve enquanto eu seguro ele aqui!
Mas eu sou brasileira e não desisto nunca (frase de fudido) e esperei firmemente e cada vez mais gelada no banquinho. 'Ele disse que furou o pneu da moto e vai chegar em 40 minutos, quer marcar pra outro dia?' Eu respondi que não e antes que vocês me elogiem por ser corajosa eu explico: paguei 40 reais naqueles anestésicos. Ôpa que o negócio ou vai ou racha. Se tem algo que me faz vencer o medo é dinheiro. Capricornianos são ambiciosos mesmo quando estão fudidos!
Mais muitos minutos esperando, eu rezando para o cara chegar calmo, senão a raiva seria descontada nas minhas costas, quando apareceu a margarida-olê-olê-olá. Calmo e limpo como se o pneu furado fosse a maior desculpa do século, pediu pra ver a tatuagem. Eu, pessoa que não gosta de mostrar a bunda pra qualquer um, me vi cheia de gente em volta (tatuador, tia, prima, Paulinha e mais uma meia dúzia de caras que esperavam algum evento do tipo acontecer) olhando para a área que vai do meio das costas até a minha bunda branca - sem nem disfarçar. E enquanto o Fernando repetia "é, não vai dar pra fazer ainda, está em relevo, tem que esperar mais" eu pensava que estúdio de tatuagem é lugar de voyeur, que quem quer ver alguém semi-pelado é só passar por um e ficar esperando e que putaqueopariu que eu gastei 40 reais em anestésico à toa, Fernando, seu fdp, você que vai pagar...
Virei pra ele com um sorrisinho amarelo e disse 'não tem problema, marco pra semana que vem' e vim embora. Dia inútil, pele de neném inútil, medo do abate inútil. E, já que a visita ao estúdio não rendeu pra mim o que rendeu para outros... me acabei de dançar no baile da escola de dança e esqueci do assunto.
Assunto esse que eu fui lembrar na sexta-feira passada, quando tive a brilhante idéia de visitar o tatuador, antes que ele me fizesse passar mais 40 reais de anestésico à toa. "Não, está perfeito, pode vir amanhã que terminamos" foi o que ele me disse. E eu já saí toda tremendo e com medo por antecedência, me atirei lá no Jogos Mortais VI e pensei que seria consolo para ter alguém nitidamente rasgando minhas costas no dia seguinte. Pausa.
Pípou, que achei lá no Jogos Mortais uma boa desculpa para estar acima do peso: no dia que o Jigsaw pegar você e mandar cortar pedaços do próprio corpo como competição com alguém pra ver quem se mutila mais em um determinado espaço de tempo........ corte a pança! É, porque o gordinho lá fez isso, e pensando pelo lado bom... ele ia ficar só com umas cicatrizes básicas, porém vivo e magro! Agora, a tiazinha que disputava com ele era magra, coitada.... só restou pra ela cortar o próprio braço. Portanto: coma até morrer, que o seu dia de jogos com o Jigsaw pode chegar e aí você vai me agradecer!
Play. Dia seguinte chegou. Um lindo sábado de sol, esse expressivo 14 de novembro de 2009. E lá fomos nós no esquema pomadinha anestésica-adesivo-caminho para o abate. Dessa vez BEM mais nervosa que a anterior, já que era certo e nenhum imprevisto poderia acontecer. Sei que eu fiquei com dor de barriga e se tivesse alguns anos a menos (uns 2) bateria os pés e diria que não ia. Mas uma pessoa com quase 30 tem é que se fingir de segura e olhar a situação do alto do seu nariz em pé para focar toda a atenção alheia e desviar caso acontecesse algum acidente da minha cintura pra baixo. Me enfiei num vestido preto e fui (a tia me arrastou).
Tão conhecida Paulinha, tão conhecido banquinho de espera, tão pouco conhecido o indivíduo de bermuda amarela que me encarava. Euzinha, do alto da minha dor de barriga. O safadão talvez estivesse esperando a oportunidade de ver alguém quase pelado como os outros do sábado anterior e, me vendo de vestido, seria bem proveitoso. Rá que o Fernando chegou e eu fui direto pra cama de abate - levantando o vestido e mostrando um shortinho. Pessoa prevenida (e orientada pela tia - não basta ser tia, tem que participar).
"Hoje faremos uma nova posição. Senta aqui e empina." Foi assim que começou o meu lindo sábado de sol de tortura - e no meio de meia dúzia de marmanjos, entre tatuadores e tatuados. E então eu pensei que quem tatua não pode ter pudor. Tem mesmo é que sair mostrando a bunda branca e empinada pra quem quiser ver e fingir que está tudo supimpa.
Estava eu ainda absorta em meus pensamentos do parágrafo anterior, ouvindo de longe um "aaah, passou pomadinha, né?" quando a tia perguntou se estava doendo. E então eu dei por mim. JÁ TINHA COMEÇADO? VERDADE? Pela cara dela, expressão do tatuador e barulho da máquina, eu percebi que tinha! E aí, meu povo, eu fui até procurar o nome do cara: Excelentíssimo senhor Crawford Williamson Long, inventor da anestesia, eu juro que te dava um beijo na boca de língua e tudo se tivesse sobrado algum resto mortal seu. Sério. Porque, meu povo, nessa hora eu só não saí pulando de felicidade porque mesmo sem doer estava ciente que havia uma agulha perfurando as minhas costas.
Tá, explicação: mesmo com a anestesia, você sente a agulha nas costas. Ainda sente dor, não vou falar que não. Mas é absurdamente muito mais suportável do que sem. Não deixa dormente nem nada, você simplesmente tem a dor amenizada em quantidades que devem superar 99% a dor real. E, que fique claro: enquanto eu xingava a tia por achar que sabia exatamente onde ela tinha passado direito a pomada ou não, o tatuador a defendeu (ôpa) dizendo que a anestesia pega melhor em alguns lugares do que outros. Então onde era mais perto da coluna eu sentia mais dor. O bom é que ela parece ter efeito contrário ao da agulha da tatuagem: pega mais onde tem mais carne. Então na bunda, que eu quase morri de dor sem anestésico, dessa vez eu não senti nada!
Passada a sensação anestésica de felicidade que invadiu até o meu cérebro, foi tudo lindo. A tatuagem era linda, a cor era linda, o rap que tocava no rádio era lindo, a decoração indígena do ambiente era linda, a história do cara que foi tatuar um smile na bunda no dia anterior era linda. E, o tatuador, empolgado com a vida e sabendo que eu não sentia dor, completava "hoje está tudo bom, a bateria está boa, a ponta está boa, o dia está bom...."
Enfim, a anestesia não dura para sempre, e quando eu fiz o primeiro comentário de "acho que está acabando o efeito" ele respondeu que já não era sem tempo e que a tatuagem já tinha acabado. E então eu senti que estava no céu, porque a 1 hora que eu fiquei lá, com ele refazendo o traço, fazendo sombra, pintando......... foi agradável e fez com que eu atingisse o que era realmente o meu objetivo: curtir o momento.
Não me arrependo de nada, sabem? Gostei de ir da primeira vez sem anestesia, pra ver qual é a real da coisa. Antes eu achava que todo mundo fazia, não podia ser tão dolorido. E gostei mais ainda de descobrir que anestésico muda da água pro vinho a vida da gente, e permitiu que eu achasse tudo lindo e curtisse o momento depois de descobrir como a real é tão dolorida.
Agora eu já posso virar gibi. Sem anestésico na primeira sessão, com anestésico na segunda. Simples assim.
E, enfim... fotinhas, para os curiosos:
Oi, Sr. Jigsaw? É pra eu me mutilar? Vê aê um anestésico então.
No fim do arco-íris tem um pote de.... anestésico, claro!
(esse dedo gordo é da tia, não é meu não)
Traço refeito, sombras prontas. Começando a pintar!
Momento 'eu tenho uma bunda roxa e você não tem'
Detalhe do desenho pronto. As pintas foram obras de Deus, tá?
Não basta ser branca... tem que inchar.
Sangue meu, sangue meu...
Desenhooo... o mamute tem desenhooo...
Detalhe de minhas flores de lótus. Agora eu tenho flores na bunda!




