quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sobre Melancolia

Estava eu lendo uma reportagem dia desses sobre a minha homônima famosa, e deixando de lado o fato de acreditar que pessoas com o mesmo nome possuem traços de personalidade semelhantes (imagine com o mesmo nome E sobrenome!) e a sutileza do jornalista ao escolher tão bem as palavras e assim retratá-la (a moça) de maneira clássica como o próprio estilo que ela parece possuir, comentou-se que ela tem um toque de melancolia e gosto pelo triste. Não, não é maria-velório nem nada, os fatos que exemplificaram a característica na pessoa é o gosto por poesia e fado. Dizia ela que o triste é mais belo, e apesar de toda a minha rejeição por poesia, fado, literatura de cordel e o que mais do tipo passar por mim, devo dizer que o gosto pela melancolia também me consome.

Sei lá, devo já ter mencionado, mas eu acho que quem acorda dando bom dia para o sol e se sentindo em comercial de margarina é um tremendo hipócrita. Que a vida tem sim muitos momentos felizes, mas é da nossa natureza dar mais valor e ocupar mais nosso tempo com as tristezas. E aí eu nem sei bem dizer se é o gosto pelo pessimismo (uma pessoa pessimista aproveita mais suas vitórias simplesmente por não esperá-las e não se abate tanto com suas derrotas como um otimista) ou se é o real fato de ser com elas que aprendemos. Que evoluímos, que amadurecemos. Que nos conhecemos. Que conhecemos os outros. É na tristeza que a gente para pra pensar sobre os nossos objetivos de vida. E repensar.

Essa tristeza não é aquela de sair reclamando não. Não é. Não é sentar na cadeira do médico e começar a reza do terço. Não é se entupir de remédio tarja preta e se jogar da ponte. Não é sair falando pra todo mundo que você é uma coitada. Não é a tristeza por um ente querido que partiu ou está nas últimas nem nada. Digo a tristeza característica, aquela que faz parte da personalidade. E não a que se instala por qualquer motivo. É sorrir pensando além. É analisar o que quase ninguém vê. É questionar o não usual. É esse olhar triste que você tem.

Ah, está tudo lindo com você? Chove na sua horta bem mais que na do vizinho? Seu carro é do ano e você está nadando em dinheiro? Só tem modelo na sua pegada e você está fazendo sexo animal de meia em meia hora e unindo o útil ao agradável porque a sua barriga está um tanque de lavanderia? Você come horrores e não engorda e pode enfiar essa sua cara numa transmissão HD que seus poros vão aparecer todos fechados como bunda de bebê? Que bom, hein? Agora sai de perto de mim que você nada tem a acrescentar dessa sua falsidade na minha vida.

A vida não é fácil. Não é amarelinha ou alaranjada e muito menos cor-de-rosa. A vida é cinza, de vários tons. E é no acinzentado que surgem sempre as melhores obras. Melhores literaturas. Melhores pinturas, melhores músicas. Melhores pessoas. É fácil gostar de quem se mostra sempre alegre e amigo de todo mundo. Quero ver gostar de pessoas realistas. A melancolia é mais inteligente. É mais seletiva. É mais racional. É mais verdadeira. Admiração pela essência e complexidade de alguém. E isso sim tem o maior valor.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sobre meu melhor Reveillon

Vinte e três horas e alguma coisa. Nós na praia, eu tentando caminhar na areia fofa com uma sandália. Medo de pisar em cacos de vidro, avisei. Nos posicionamos perto dos holofotes e longe do alvo dos fogos. Em uma pequena roda de 4 pessoas, tentávamos nos organizar com as mandingas que nos propomos a fazer. Só eu e a tia, inicialmente. Mas Fabiana e Erik entraram na onda facilmente. Enquanto o Erik tentava inutilmente partir uma romã sem nenhum objeto cortante, eu distribuía as uvas e alguém me questionava sobre como colocar tantos caroços na carteira. E, com as mãos cheias de uvas, taças e grãozinhos de romã que teimavam em cair das mãos da Fabi, pensávamos em quais pedidos fazer na hora de pular as 7 ondinhas. O Erik planejava com qual mão abriria a champagne, e a tia reclamava que as uvas em suas mãos estavam cozinhando. Chuviscava. E em meio a tantos planos para a meia noite, a nossa champagne, que estava no chão, abriu sozinha. Sorte minha não estar com a cara perto da garrafa, pensei. Só me faltava mesmo um olho roxo em plena entrada de 2010. É, porque eu atraio tanta coisa para os olhos, que uma rolha a mais uma a menos não seria difícil. Enfim, ficou decidido que era uma entidade e Erik derrubou um pouco de champagne no chão para brindarmos com o quinto elemento também.

Quinze para a meia noite. Dois casais do nosso lado, munidos de flores, começaram a se aproximar de nós. No começo pensei ser calor humano, mas quando um dos rapazes se ofereceu pra fazer a contagem conosco, pensei melhor. Pensei no mico que seria fazer uma contagem regressiva assim, alto e em público. Não me lembro bem o que o Erik respondeu, só sei que colocou a Fabiana para longe deles e decidiu que não dividiria nossa champagne com ninguém. 'Ninguém vai abraçar a minha esposa', dizia. E então, nos minutos seguintes que se passaram, nós lá, cheios de coisas nas mãos, e os casais cada vez mais perto de nós. Tinham também uma champagne, não queriam a nossa. Cheguei a pensar que a moça nos daria aquelas rosas. Cheguei a pensar que queriam se sentir amados pelos nossos abraços. Mas nós, indivíduos Grinch que somos, nos afastávamos cada vez mais deles. Não eu, que estava preparada para me defender caso chegassem perto. É, porque eu não ia sair dali e deixar nossa champagne. Foram longos minutos até que eu percebesse que a meia noite chega para cada um em horário diferente. No Nextel do Erik ainda faltavam 5 minutos, quando as pessoas do nosso lado já gritavam feliz ano novo como se não tivesse amanhã. Pulavam uns nos outros. Comemoravam. Espirrou champagne em mim, mas eu nem matei ninguém porque já tinha lido na internet que isso me traria muita sorte. Assim espero porque do contrário, teriam morrido. Mais alguns minutos e os dois casais das flores chegaram no ano novo deles também. Brindes, gritos, beijos que eu imaginei línguas tocando estômagos alheios. Nós quatro assistindo. Quietos. Sérios. Imóveis. Distraídos como quem vê um curioso filme.

E então chegou a nossa vez. 'Meia noite', disse o Erik. E então todo mundo enfiou os caroços de romã na boca. Alguns de uma vez, outros um por um. E então nesse momento tudo que havia ao nosso redor foi ignorado. Porque nos olhávamos sem saber se ríamos, fazíamos careta ou engolíamos o caroço. Fabi e Erik nunca tinham comido romã e pela cara que fizeram não será experiência repetida nessa vida. A tia concentrada em seus caroços um por vez e eu, sem fôlego. É, porque eu tentava comer meus grãos sem engolir, mas tive um ataque de riso por toda a situação. Gargalhar sem abrir a boca, senão minha romã seria desperdiçada. Chorei. Fiquei sem ar. Sementes finalmente separadas, chegou a vez da nossa champagne. E de pular as ondas sem derramar. Concentrei-me nos meus pedidos. Mas onde estávamos havia um buraco no mar, e todas as ondas, quando chegavam em nós, viravam marolas. Todo mundo em volta pulando onda e nós olhando. A tia pulou uma meia dúzia de marolas e achou que tinha que me ajudar. Gritava desesperadamente mostrando cada onda que passava por mim, como se eu fosse cega. As pessoas em volta pararam para olhar. Eu, champagne, pedidos e minha alma king kong falei pra que ela voltasse pra areia. Precisava de paz para pular minhas ondas.

Ondas puladas, champagne bebido. Olhei pra areia e me lembrei. Reveillon de 2010. Praia cheia. Todo mundo de branco. Noite. Céus, como raios eu vou achar o caminho de volta? Oi? Pessoa extremamente perdida, prazer. Fechei os olhos, respirei fundo. Pânico. Nenhum guardassol de bolinhas (lembrei agora porque meus pais sempre tiveram um guardassol único e cheguei). Nenhuma cor, nenhum ponto de referência. Nenhuma gorda de biquíni por perto. Medo. 'Não faça cara de perdida', sussurrei pra mim mesma. E então comecei a pensar. Sem dinheiro. Sem celular. Sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Tá, eu nem tinha bolso mesmo. E nas mãos, uma taça vazia. Como se isso me ajudasse a encontrar o caminho de volta. Ouvi meu pai me dizer 'sua anta, por isso nunca te levei para um reveillon na praia'. E pensei em esperar as pessoas se dissiparem. Pensei em sentar lá e esperar o dia seguinte. Poxa, eu tava de amarelo, ninguém ia me procurar? Passei longos segundos olhando os fogos sem prestar atenção. Eu não sabia voltar pra casa dos amigos. Eu não tinha como avisar. Eu ia morrer seca ali. Em uma praia do Guarujá.

Meus olhos se acalmaram e passei a olhar desinteressadamente para as pessoas. Como minha despreocupação ao fazer meu segundo exame para habilitação: 'se eu não passar, compro a carta e pronto'. O pensamento naqueles primeiros minutos de 2010 foram exatamente 'se ninguém me achar, morro na praia e pronto'. E então avistei a cara japa mais conhecida de todos os tempos. Preocupada, olhando o mar, na ponta dos pés. Como se Iemanjá tivesse me levado. Oferenda amarela. Talvez um super melão. A ressaca me traria de volta no dia seguinte.

Cheguei reclamando que ninguém ligou para os bombeiros na minha ausência. Indignação essa que passou rápido, pois eu ainda tinha as uvas. Enfiei a primeira das 12 que me pertenciam na boca e me concentrei. Fabi e Erik chegaram das ondas. Depois de a convencerem que naquele fuá não tinha siri que se salvasse, ela conseguiu pular suas devidas 7 ondas. Veio me abraçar para desejar feliz ano novo. Eu, com a boca cheia de uvas, não consegui responder. Foi um cumprimento silencioso. Uva enorme. Embolou na minha boca. Mas que fique claro que eu também desejei pra ela um bom ano. E então nos outros cumprimentos eu só consegui, de novo, rir. E depois de sei lá quantas uvas e risadas, me toquei que perdi a conta. É, das uvas. Não sabia mais se tinha comido seis, sete ou onze. E pensei em fazer pela estimativa. Média. Mediana. Ângulo logarítmico e não se fala mais isso. É, mas se eu errasse pra mais ou pra menos, nada daria certo. Talvez tivesse até o efeito contrário. E então, com a pança cheia de uvas, depois de ter perdido todo o melhor da festa por estar comendo uvas... desisti e joguei os caroços que eu já tinha fora.

Não vi os fogos, estava ocupada. E uva dá um sono danado. Não comi a lentilha primeiro. Eu queria era dormir. Não aproveitei a ceia. Eu queria era dormir. Não enchi a cara com o resto do champagne. Eu queria era dormir. Não comi mais um pedaço de torta holandesa. Eu queria era dormir. Não senti o gosto do tabule que eu tanto gosto. Eu queria era dormir. E então, me lembro ainda, que minutos antes de fechar os olhos, vi na tv, naqueles programas de reforma de casa, uma parede com textura degradê em tons de lilás. E gostei.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Agradecimentos

Tá vai, o ano acabou. E voou de forma absurda, como todos os outros que o antecederam. Mas devo dizer que esse fim de ano é especial. Porque é hoje que eu faço 30 anos de vida e penso muito nisso desde a década passada. Trinta é época de repensar a vida e eu digo isso por experiência própria. Hoje, nesse dia fatídico, chego à conclusão que a minha vida foi bem linear no que dependia exclusivamente de mim. Tive poucas mudanças de pensamentos e atitudes e mantive sempre a minha personalidade inicial. Essa de ser assim, para poucos. E do alto de todo esse peso de trinta anos nas costas digo que a minha vida até aqui até que foi bem proveitosa. Como a astrologia diz, fico mais sábia conforme passam os anos. Porém evoluo da responsabilidade e do pesar de um adulto para a leveza e tranqüilidade de uma criança. Efeito contrário, já me disseram. E nessa vida que passou eu já fiz muitas coisas. Já estudei todos os anos que a população exige para que eu seja uma profissional respeitada. Já recebi prova com recado da professora dizendo que eu era a melhor aluna que ela tinha. Já cabulei aula, já pulei o muro, já subi na árvore, já fui jogada na piscina, já pedi dinheiro no farol com a cara cheia de tinta verde, já quase morri escorregando de uma pedra na praia, já fui pega na hora H. Mas nunca levei ovada de aniversário. Nunca andei à cavalo. Nunca saí do Brasil. E nunca fui no show da minha banda favorita. Mas eu já caí. Muitas e muitas vezes, nas escadas, no chão molhado, na borda da piscina indo de encontro ao peguete mais lindo da minha vida, na areia do paraíso atropelada pela carroça, na rua, na chuva, na fazenda e na casinha de sapê. Já joguei Super Bonder no olho e já tirei rímel com acetona por engano. Já fui mordida pelo meu próprio cachorro. Já tive um gato inesquecível. Já comi linhaça e fiz pizza de quinoa. Ainda não aprendi a comer comida japonesa e sentir prazer. Prazer, esse que eu demorei pra saber como funcionava. Já fiquei presa no banheiro da faculdade. Já fiquei presa no banheiro da casa da sogra. Já fiquei presa na escola fechada. Já ouvi muita música e já descobri que é algo que me faz lembrar de cheiros, pessoas, lugares. E é capaz de mudar o meu humor de maneira mágica. Vi tantos filmes quantos consegui e sinto dizer que a minha memória não é o suficiente para que eu lembre de mais que os 5 últimos. Li bem mais livros que uma pessoa comum de trinta conseguiria. Já joguei muito vídeo game, muito mais do que pensei que fosse possível antes de enjoar. E já joguei de tudo. Bem mais quando era mais nova, porque a intolerância e a falta de vontade extrema de ganhar fatalmente me pegaram desprevenida conforme os anos se passaram. Desenho animado. Algo que eu amava imensamente e que hoje não é mais a mesma coisa. Já troquei a vida de ficar em casa pela de sair pra comer e então para a de sair pra balada, tudo não necessariamente nessa ordem. Aprendi a beber, deixei o cabelo crescer. Fiz natação, inglês, pintura, dança. E aprendi a bordar. Queimei muita comida pra descobrir que cozinhar é fácil e prazeroso. Fui em muitos shows. Skank, Paralamas, Titãs, Capital Inicial, Zélia Duncan, Pitty, Jota Quest, Teatro Mágico, Sandy e Júnior, Rastapé. E Aerosmith, Elton John, Madonna. Descobri que ver pessoalmente alguém que canta as músicas que eu tanto gosto é uma sensação única. Nesses 30 anos passei de gorda a magra e magra a gorda muitas vezes. Até chegar aqui e dizer pra mim mesma que agora chega e que independente de como esteja, tem gente que gosta. Só falta eu também entrar nesse time. Dormi muito. Dormi demais. Dormi ininterruptamente quase todas as noites desses trinta anos e deve ser por isso que o colágeno sempre esteve a meu favor, porque ninguém me dá nem perto de trinta anos. Insônia não é palavra presente no meu vocabulário e eu agradeço imensamente por isso. Muitos sonhos. Muitos sonhos repetidos. Muitos, muitos pesadelos. Nesses trinta anos eu me apaixonei. Muito mais do que gostaria e muito menos do que era capaz. Vivi contos de fadas e realidades amargas, tudo a seu tempo e tudo com tempo suficiente para que eu sentisse até o fim cada uma delas. Chorei até soluçar. E ri até engasgar. Talvez eu tenha rido bem mais do que chorado. Ou talvez não. Vontade de voltar atrás e viver tudo de novo, mas tudo exatamente igual. Porque é assim que tinha que ser.

E tá, queria fazer um agradecimento especial ao Bon Jovi e Aerosmith, meus verdadeiros vícios musicais de toda uma vida. Sem desmerecer de forma nenhuma todas as outras bandas e cantores de rock nacionais e internacionais: Foo Fighters, Oasis, Metallica, The Calling, Alanis, Evanescence, Guns, Madonna, Michael Jackson, Pink Floyd, Queen, Led Zeppelin, Roxette, Shakira, U2, Sheryl Crow, Shania Twain, The Beatles. Cássia Eller, Cazuza, Gal Costa, Jota Quest, Kid Abelha, Legião, Lobão, Paralamas, Pitty, Skank, Titãs, Djavan e Angélica. Todas tão presentes em momentos tão importantes. Agradeço a Marion Zimmer Bradley, Christian Jacq, Marian Keyes, Edson Gabriel Garcia, Christopher Paolini, J.K. Rowling, Antoine Galland, José Mauro de Vasconcelos, Ganymédes José, Bernard Cornwell, Margaret George, Stephenie Meyer e todos os autores que colaboraram para a existência da coleção Vaga Lume, por escreverem os melhores livros lidos por mim em todos esses anos. Agradeço também a todos os produtores de todos os filmes amados por mim em todos esses anos que, como eu já disse, a memória me impede de mencioná-los. Um agradecimento especial aos gênios de Lost e House, mas também aos que idealizaram Friends, The Big Bang Theory, Smallville, Law and Order SVU, Two and a Half Men e Sex and the City. Todos sensacionais e inesquecíveis, tanto quanto seus precursores A Feiticeira, Jeannie é um gênio, I Love Lucy, Punky, Vicky, Blosson e The Cosby Show. E aqui falou a viciada em séries de tv desde sempre. Agradeço à Mônica Martelli pela melhor peça de teatro de todos os tempos. Agradeço aos inventores da internet e softwares necessários para que hoje eu possa me divertir nesse blog, Twitter, Facebook, MSN e e-mail e não mais gastar rios de dinheiro com a conta de telefone ou esperar séculos por uma resposta de uma carta. Agradeço aos inventores de The Sims, Sim City, Roller Coaster Tycoon, Zoo Tycoon e Spore, por tantas tardes e noites de diversão. E aos donos de Playcenter, Hopi Hari e Wet 'n Wild por terem me proporcionado ocupação até que eu enjoasse de parques de diversão. Ao inventor da montanha russa. Agradeço ao Fernando por ter realizado meu sonho de ter uma tatuagem e também ao inventor da anestesia, é claro. E ao sr. Josh Holloway, por ser tão colírio. E à população feminina mundial, por me fazer perceber que era inútil ter medo de dirigir se tanta anta pisa no acelerador sem nem reparar no mundo à sua volta. Agradeço ao príncipe do hospital, por ter saído de mansinho antes que eu pudesse me arrepender de não ter correspondido. Aposto que ele devia ser um pé no saco. E também à Cleide, minha professora de matemática da sexta série, que me ensinou tudo a ponto de fazer com que essa fosse minha matéria preferida desde sempre. E à Berenice, professora de português que me elogiava tanto e hoje provavelmente esse blog não existiria se não fosse todo o confete que ela sempre jogava em cima de minhas redações. Agradeço aos meus muitos amigos japas de toda uma vida, que provavelmente influenciaram na minha vontade de estudar que me acompanha até hoje. E também aos não japas. Aos que continuam a vida aos meu lado ou com contato distante, mas também aos inesquecíveis que nunca mais vi. Agradeço ao Fernando, seu imbecil, por ter me avisado que a minha testa era grande. E à merenda escolar por formar em mim a opinião de que comida fora de casa é horrível. Por outro lado não posso deixar de agradecer à tia da cantina por ter feito os melhores pães de batata com recheio de catupiry que eu já comi por toda a vida. E à lanchonete do lado da Vivo por me proporcionar as melhores fogazzas de quatro queijos. E à tia da tapioca da rua Itapeva. Sensacional, apesar de ter quebrado meu dente. E à banca de pastel da Vila Sônia, dona do melhor pastel de frango com catupiry, tão maravilhoso quanto o pastel de palmito do Ceasa ou o pastel de queijo com calabresa da Vila Mariana. E como não poderia deixar de ser, agradeço do fundo do coração ao fundador do Mc Donalds da Henrique Shaumman, que também faz 30 anos e cresceu comigo e de mãos dadas por todos esses anos. Mas eu gostaria de deixar um agradecimento especial ao dono da rede Outback, que putaqueopariu, vai fazer comida sensacional assim lá em casa. Abraço caloroso ao inventor da pizza e agradecimento ao gordinho da pizzaria, por toda a gorgonzola que sempre me pertenceu. Agradeço ao gordinho da locadora por ter sido sempre tão gentil nas minhas locações de comédias românticas. Agradeço à viagem de colegial inesquecível. Agradeço ao Sérgio, meu ex professor de natação, por ter me feito perceber que virada na piscina é a coisa mais sem noção e suicida que alguém já inventou. E agradeço ao Nelson, professor de dança, por todos os forrós e sambas de gafieira dançados sensacionalmente bem. Agradeço ao dono da casinha roxa em Aiuruoca, pela excelência em arquitetura. E ao Rodrigo Santoro, por ter saído rápido de Lost. Agradeço por ter pego o buquê e Cida, minha cartomante favorita, você me paga da próxima vez que eu for aí. Agradeço aos melhores professores de inglês de todos os tempos, e em especial àquele que dizia que eu era ‘wonderful’. E agradeço ao Douglas pelo estímulo de fazer a aula. E por algumas coisas mais. Agradeço à Daia pelo corte de cabelo sensacional, mas agradeço à Kimie por tantos anos de dedicação e corte reto, como eu sempre quis. Agradeço à Rose pelo vestido amarelo que me deixou gorda. À dermatologista por não ter me deixado ficar careca, e à ginecologista açougueira por ter descoberto o milagre do fim de minhas cólicas infernais. Agradeço a todos os meus compradores de Mercado Livre. E aos professores e alunos da aula de dança, por serem sempre tão agradáveis e fazerem parte dos melhores momentos atuais da minha vida. Agradeço ao Tadeu, meu corretor, por ter me livrado daquela gente chata. E ao seu Janis, marceneiro, por ter transferido meu guardarroupa embutido. Aliás eu agradeço os porteiros do meu prédio, no empenho pela busca de um chaveiro no dia em que eu perdi a chave, e na luta pra pegar quando a mesma caiu no vão do elevador. Porteiros de ouro. Agradeço ao vizinho de cima por ser tão silencioso. E ao negão, por ter comprado uma persiana. Agradeço ao mar, por todos os momentos de cumplicidade. E ao céu, pela grandeza de cobrir toda uma população. Agradeço pela minha fé. Agradeço aos meus pais, por todos os bens materiais e por me ensinarem que as coisas lá fora podem ser bem mais fáceis que as daqui de dentro, e que a minha autossuficiência, autossegurança, autoestima e todas as outras autos deveriam brotar em mim como passe de mágica e sem ajuda. E que eu nasci sozinha e assim permanecerei até o fim dos meus dias. Agradeço ao meu irmão, por ter nascido e mudado toda a minha vida pra melhor desde esse momento. Por todas as vezes que me antena ao mundo nerd, por tantos detergentes no nariz, por disussões intermináveis de arroz por baixo do feijão e por luta corpo à corpo na hora da refeição. Por ter me feito correr na subida e por tantas vezes que se fez um bebê difícil de segurar no meu colo. Por todos os desenhos de Cavaleiros do Zodíaco. E por elogiar a minha comida tantas vezes. Agradeço à Sissi, por ser tão mais amiga do que tia, irmã, prima, gêmea japa ou qualquer outra denominação que pudéssemos ter. Agradeço pela presença e por me acompanhar e me ajudar sempre em tudo. Não sei o que seria de mim sem você. Agradeço à minha avó, por toda a serenidade e por sempre ter me mostrado que tudo não passava de tempestade em copo d’água. E ao meu avô, meu padrinho, por todo o carinho muito além do esperado e muito cheio de saudades. Agradeço à tia Sandra, por toda a dedicação que sempre teve comigo e por ter me apresentado o queijo gorgonzola, e aos outros tios, primos e avó paternos, por fazerem com que eu me sinta amada a cada abraço apertado. Agradeço à Luana por todas as orientações sem-glúten da face da Terra. Agradeço ao Bruno, por ter sido tão tio, por tantas tardes inesquecíveis de coelhinhos, por partidas cheias de favelados no WAR, por ser cobaia no meu doce de ovo, por ter me apresentado ao Lost, pela tarde no kart, por tantas apresentações de teatro e por ter me feito chorar de rir sendo Clodoaldo. Agradeço ao David, por ter sido também bem mais que tio, e por ter estado presente em momentos que estarão gravados para sempre na minha memória. Saudade da sua presença. Agradeço à Tali, por ter sido sempre tão companheira e tão igual em tudo o que se referia a shows, música, pintura. Mas agradeço infinitamente mais por você ter voltado. Miniatura minha, alguém já dizia. Alguém esse que ficou por muito tempo e fez muita diferença. Alguém que me fez muito feliz e que eu nem tenho palavras pra agradecer. Tudo o que eu aprendi, tudo o que eu vivi, tudo o que ficou. Pessoa inesquecível, pessoa que tem toda a minha ternura para sempre. Agradeço também a todas as pessoas agregadas a ele e que fizeram parte da minha vida por 6 longos anos. Família e amigos sensacionais, sem sombra de dúvida. Parte importante do meu passado. E, falando nisso, agradeço também àquela outra pessoa, que me ensinou a ser esperta. Me ensinou a esnobar. Me ensinou a recusar pedidos de casamento. E me ensinou o que o resto da população masculina costuma elogiar. Agradeço à Isis, por ser a amiga Barbie mais trabalhada no secador de todos os tempos, que me faz rir horrores e que não esquece de mim quando preciso. À Débora, por ser a amizade mais inusitada e divertida, que me leva de curso de passar roupa a Natal, me leva pra ver e me indignar em Fuerza Bruta, me empurra para primeiro dia de aula de dança e se perde comigo em Itaquera. Aos amigos de Vivo, por estarem presentes quando precisei, em especial Dani, Dejair e Andresa. À ex chefe, por ter brotado em mim a semente do 'eu sou melhor'. Aos chefes de SESC, por terem me ensinado a aprender as coisas por osmose. Quase tudo o que eu sei de informática. Aos colegas de GV, pelas várias tardes de hot dog e poucas noites de cervejada. À Iara, por falar mais que os cotovelos e ser a melhor amiga de baile que eu podia ter. À Vânia, que apesar de todos as reviravoltas que a vida deu, continua do meu lado sempre e pra sempre. Ao Wagner, por ter ficado do meu lado apesar de tudo o que perdeu. E por todas as coisas amarelas que existiram. À Ju, amiga agregada e de balada, pau pra toda obra e integrante de uma das famílias mais fofas que eu conheci na vida. À Sabrina, Fabi e Priscila, por todo o carinho de amigas também agregadas, mas nem por isso menos importantes, cada uma de um jeito. Ao Alexandre, por ser o amigo gay mais cherry e chique de todos os tempos. E agradeço também à Jana, por ter sido tão importante e amiga no momento mais difícil da minha vida. À Fersi, por tantas conversas fofas e ao Ed, por ter transformado tudo o que eu já não me importava mais. Não foram as pessoas que eu mais encontrei na vida, mas foram sem sombra de dúvida as que mais me divertiram e mais me ajudaram a ser feliz diariamente. Mesmo de longe.

Agradeço também às novas amizades feitas aos poucos e regadas de contato diário via esse blog e via twitter. Taty, Ju Ferrer, Lilly, Silvia, Lilica, Ju, Evelyn, Anna. Agradeço à saudosa Lilith. E, claro, agradeço a você, leitor, por toda a paciência em me ler e deixar comentário. Porque esse blog com certeza não teria tanto sentido se não fosse assim. Momentos da minha vida e pensamentos meus, compartilhados dia a dia com vocês e que retornam, sempre, em carinho e atenção. E por mais que eu odeie ser frufru, devo admitir, à lá William Bonner: ‘obrigada. Vocês são show!’

aos 2

aos 5

aos 9



aos 13


aos 17


aos 25


aos 27


aos 29





... e esperem aí que eu vou ali tirar a foto da bunda caída, do pé de galinha e do chá da tarde com tricô... e já venho postar a dos 30.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal.

Apesar de não ter desejado antes nem ter retribuido as mensagens fofas que recebi...

... não, eu não esqueci de vocês.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Fazer 30 anos

Por Affonso Romano de Sant'Anna

QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.

Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.

Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.

(do livro do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 36.)


(Fernanda Montenegro, aos 31)