terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sobre A Hora do Pesadelo - A Revanche

Então que, pra quem não leu o post de algumas semanas atrás, eu tive a brilhante idéia de fazer a minha primeira tatuagem. Porque sempre quis, porque vou fazer 30, porque seria um marco, porque quis me dar de presente. Fui e quase morri. Doeu, melou, inchou, babou, sangrou, rasgou. E, fora dos planos iniciais, o tatuador só conseguiu fazer o risco, meio que meia boca porque eu estava sentindo muita dor. E me pediu para voltar assim que cicatrizasse. Me deu um nome de anestésico e todas as orientações para passar no dia que tivesse que voltar. E eu fui para casa feliz da vida.

Daí que eu passei a semana plastificada, passando pomadinha 3 vezes por dia e cheia dos frufrus. Meu pai veio no "olha que superlegal" enfiando o dedão onde não podia antes que eu desse qualquer grito - já que ele conhece a própria cria e se adiantou. E assim passei a semana, chocando meu desenho nas costas como se fosse um ovo. Até o sábado seguinte.

Anestésico comprado, eu passei as primeiras horas do dia completamente muda, enquanto a tia espalhava aquele treco em mim e a prima olhava. E eu fui para o estúdio como se fosse uma múmia. Múmia não, que múmia já morreu. Eu fui mesmo como um porquinho que vai para o abate: pensativo, cabisbaixo, com a vida passando diante do nariz. Com o agravante de, mesmo com as costas cheias de pomada anestésica, eu ainda sentir tudo o que encostasse em mim. 'Pronto, gastei maior grana com essa merda e ainda vou sentir dor igual', era o que eu pensava.

Olhei para os manobristas do estacionamento como que pedindo piedade. Andei pelo corredor da entrada do estúdio como quem vai para a forca. Faltava só fazer um testamento. E, enquanto eu pensava que não teria mais tempo para lamúrias internas, Paulinha, a mocinha com dreads da recepção, avisou que o Fernando ainda não havia chegado.

Não sei vocês, mas sempre que eu preciso fazer alguma coisa terrível, prefiro que seja logo. Eu não gosto de ficar sofrendo tipo aquele povo do Jogos Mortais não. Queeêê desvendar jogo o escambau! Eu vou ficar sentada aqui e que apressem a minha morte logo e pronto! O-DE-I-O com todas as minhas forças situações que se arrastam pelo tempo e que me fazem ficar mais ansiosa a cada minuto que passa. Pois foi assim. Passada uma hora de espera, eu pensando no anestésico que nem faria mais efeito, a tia apostando que o cara estava dormindo ainda, a Paulinha dizendo que ele acordava 6 horas da manhã todo dia. E o cara não atendia telefone nenhum. Foi God, pensei comigo mesma. God está me dando um sinal: corra, filha, corra para as montanhas e se salve enquanto eu seguro ele aqui!

Mas eu sou brasileira e não desisto nunca (frase de fudido) e esperei firmemente e cada vez mais gelada no banquinho. 'Ele disse que furou o pneu da moto e vai chegar em 40 minutos, quer marcar pra outro dia?' Eu respondi que não e antes que vocês me elogiem por ser corajosa eu explico: paguei 40 reais naqueles anestésicos. Ôpa que o negócio ou vai ou racha. Se tem algo que me faz vencer o medo é dinheiro. Capricornianos são ambiciosos mesmo quando estão fudidos!

Mais muitos minutos esperando, eu rezando para o cara chegar calmo, senão a raiva seria descontada nas minhas costas, quando apareceu a margarida-olê-olê-olá. Calmo e limpo como se o pneu furado fosse a maior desculpa do século, pediu pra ver a tatuagem. Eu, pessoa que não gosta de mostrar a bunda pra qualquer um, me vi cheia de gente em volta (tatuador, tia, prima, Paulinha e mais uma meia dúzia de caras que esperavam algum evento do tipo acontecer) olhando para a área que vai do meio das costas até a minha bunda branca - sem nem disfarçar. E enquanto o Fernando repetia "é, não vai dar pra fazer ainda, está em relevo, tem que esperar mais" eu pensava que estúdio de tatuagem é lugar de voyeur, que quem quer ver alguém semi-pelado é só passar por um e ficar esperando e que putaqueopariu que eu gastei 40 reais em anestésico à toa, Fernando, seu fdp, você que vai pagar...

Virei pra ele com um sorrisinho amarelo e disse 'não tem problema, marco pra semana que vem' e vim embora. Dia inútil, pele de neném inútil, medo do abate inútil. E, já que a visita ao estúdio não rendeu pra mim o que rendeu para outros... me acabei de dançar no baile da escola de dança e esqueci do assunto.

Assunto esse que eu fui lembrar na sexta-feira passada, quando tive a brilhante idéia de visitar o tatuador, antes que ele me fizesse passar mais 40 reais de anestésico à toa. "Não, está perfeito, pode vir amanhã que terminamos" foi o que ele me disse. E eu já saí toda tremendo e com medo por antecedência, me atirei lá no Jogos Mortais VI e pensei que seria consolo para ter alguém nitidamente rasgando minhas costas no dia seguinte. Pausa.

Pípou, que achei lá no Jogos Mortais uma boa desculpa para estar acima do peso: no dia que o Jigsaw pegar você e mandar cortar pedaços do próprio corpo como competição com alguém pra ver quem se mutila mais em um determinado espaço de tempo........ corte a pança! É, porque o gordinho lá fez isso, e pensando pelo lado bom... ele ia ficar só com umas cicatrizes básicas, porém vivo e magro! Agora, a tiazinha que disputava com ele era magra, coitada.... só restou pra ela cortar o próprio braço. Portanto: coma até morrer, que o seu dia de jogos com o Jigsaw pode chegar e aí você vai me agradecer!

Play. Dia seguinte chegou. Um lindo sábado de sol, esse expressivo 14 de novembro de 2009. E lá fomos nós no esquema pomadinha anestésica-adesivo-caminho para o abate. Dessa vez BEM mais nervosa que a anterior, já que era certo e nenhum imprevisto poderia acontecer. Sei que eu fiquei com dor de barriga e se tivesse alguns anos a menos (uns 2) bateria os pés e diria que não ia. Mas uma pessoa com quase 30 tem é que se fingir de segura e olhar a situação do alto do seu nariz em pé para focar toda a atenção alheia e desviar caso acontecesse algum acidente da minha cintura pra baixo. Me enfiei num vestido preto e fui (a tia me arrastou).

Tão conhecida Paulinha, tão conhecido banquinho de espera, tão pouco conhecido o indivíduo de bermuda amarela que me encarava. Euzinha, do alto da minha dor de barriga. O safadão talvez estivesse esperando a oportunidade de ver alguém quase pelado como os outros do sábado anterior e, me vendo de vestido, seria bem proveitoso. Rá que o Fernando chegou e eu fui direto pra cama de abate - levantando o vestido e mostrando um shortinho. Pessoa prevenida (e orientada pela tia - não basta ser tia, tem que participar).

"Hoje faremos uma nova posição. Senta aqui e empina." Foi assim que começou o meu lindo sábado de sol de tortura - e no meio de meia dúzia de marmanjos, entre tatuadores e tatuados. E então eu pensei que quem tatua não pode ter pudor. Tem mesmo é que sair mostrando a bunda branca e empinada pra quem quiser ver e fingir que está tudo supimpa.

Estava eu ainda absorta em meus pensamentos do parágrafo anterior, ouvindo de longe um "aaah, passou pomadinha, né?" quando a tia perguntou se estava doendo. E então eu dei por mim. JÁ TINHA COMEÇADO? VERDADE? Pela cara dela, expressão do tatuador e barulho da máquina, eu percebi que tinha! E aí, meu povo, eu fui até procurar o nome do cara: Excelentíssimo senhor Crawford Williamson Long, inventor da anestesia, eu juro que te dava um beijo na boca de língua e tudo se tivesse sobrado algum resto mortal seu. Sério. Porque, meu povo, nessa hora eu só não saí pulando de felicidade porque mesmo sem doer estava ciente que havia uma agulha perfurando as minhas costas.

Tá, explicação: mesmo com a anestesia, você sente a agulha nas costas. Ainda sente dor, não vou falar que não. Mas é absurdamente muito mais suportável do que sem. Não deixa dormente nem nada, você simplesmente tem a dor amenizada em quantidades que devem superar 99% a dor real. E, que fique claro: enquanto eu xingava a tia por achar que sabia exatamente onde ela tinha passado direito a pomada ou não, o tatuador a defendeu (ôpa) dizendo que a anestesia pega melhor em alguns lugares do que outros. Então onde era mais perto da coluna eu sentia mais dor. O bom é que ela parece ter efeito contrário ao da agulha da tatuagem: pega mais onde tem mais carne. Então na bunda, que eu quase morri de dor sem anestésico, dessa vez eu não senti nada!

Passada a sensação anestésica de felicidade que invadiu até o meu cérebro, foi tudo lindo. A tatuagem era linda, a cor era linda, o rap que tocava no rádio era lindo, a decoração indígena do ambiente era linda, a história do cara que foi tatuar um smile na bunda no dia anterior era linda. E, o tatuador, empolgado com a vida e sabendo que eu não sentia dor, completava "hoje está tudo bom, a bateria está boa, a ponta está boa, o dia está bom...."

Enfim, a anestesia não dura para sempre, e quando eu fiz o primeiro comentário de "acho que está acabando o efeito" ele respondeu que já não era sem tempo e que a tatuagem já tinha acabado. E então eu senti que estava no céu, porque a 1 hora que eu fiquei lá, com ele refazendo o traço, fazendo sombra, pintando......... foi agradável e fez com que eu atingisse o que era realmente o meu objetivo: curtir o momento.

Não me arrependo de nada, sabem? Gostei de ir da primeira vez sem anestesia, pra ver qual é a real da coisa. Antes eu achava que todo mundo fazia, não podia ser tão dolorido. E gostei mais ainda de descobrir que anestésico muda da água pro vinho a vida da gente, e permitiu que eu achasse tudo lindo e curtisse o momento depois de descobrir como a real é tão dolorida.

Agora eu já posso virar gibi. Sem anestésico na primeira sessão, com anestésico na segunda. Simples assim.


E, enfim... fotinhas, para os curiosos:



Oi, Sr. Jigsaw? É pra eu me mutilar? Vê aê um anestésico então.

No fim do arco-íris tem um pote de.... anestésico, claro!

(esse dedo gordo é da tia, não é meu não)

Traço refeito, sombras prontas. Começando a pintar!

Momento 'eu tenho uma bunda roxa e você não tem'

Detalhe do desenho pronto. As pintas foram obras de Deus, tá?

Não basta ser branca... tem que inchar.

Sangue meu, sangue meu...

Desenhooo... o mamute tem desenhooo...


Detalhe de minhas flores de lótus. Agora eu tenho flores na bunda!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pausa

Gente, peraí. Eu não esqueci que prometi escrever post com fotos sobre a tatuagem finalizada, tá?

É que eu tive uma missão hoje. Missão de GUERRA.

E isso me atrasou. Mas que fique claro que o post vem sim, junto com as fotos e todas as sensações a respeito.

Jajá, tá? Aguentem as pontas aí que eu já venho!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre Jigsaw

Então. Tá calor hoje. Dormi pouco, mas não tenho sono (se eu tiver insônia, VOCÊ que vai segurar a minha mão durante o tratamento). A tia da compra no ML quer se comunicar comigo via transmimento de pensação e eu tou meio frustrada porque pesquiso, pesquiso e não acho uma informação que gostaria.

Jajá vou visitar o tatuador. Não que eu morra de saudades dele. Na verdade eu acho que ele vai queimar no mármore do inferno só por ter essa profissão. Mas é por uma boa causa. Uma bunda colorida foi a idéia inicial, e não se pode parar assim no meio do caminho. Afinal eu sou brasileira e não desisto nunca (e só pode ter sido um fudido que inventou essa frase).

SE eu conseguir sair de lá com a tia, irei ver o Jigsaw. Aquele filme fantástico. E me lembrem de pegar um saquinho de vômito na entrada. É, porque sinceramente... eu só vou pq geralmente ganho milkshake depois. Depois, porque antes periga ficar no carpete do cinema.

Enfim, hoje é sexta feira 13. E eu vou comemorar à caráter.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sobre Sonhos

"Todos nós temos nossas máquinas de tempo. Algumas nos levam de volta, elas são chamadas recordações. Algumas nos levam adiante, elas são chamadas sonhos." (Jeremy Irons)

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Más há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado. (William Shakespeare)

"Sonhos são possibilidades esperando para se tornarem reais." (Carla Jolyn Carey)

"Você é do tamanho do seu sonho." (Autor desconhecido)



daqui.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sobre Geladeiras.

Geladeira é uma coisa pessoal e cada um tem a sua, seja ela arrumadinha e cheia de coisas saudáveis ou não. Tem gente que tem só garrafa de água na geladeira. Tem gente que tem só gelo mesmo. E hoje eu vim aqui descrever um pouco sobre a geladeira de cada um.

Tem gente que tem a geladeira bem cheia, desde sempre. Muitas coisas para comer, cada dia um cardápio diferente. Aí a questão é só saber se hoje você quer comer comida nova ou congelada. E se, depois que comer, vai guardar o resto na geladeira ou jogar fora. Eu, ser estranho e fora do comum, tenho a geladeira vazia. É, porque quando resolvo comprar algum alimento, espero até que fique bem maduro e bem doce para então saborear, por muito tempo, quase ruminando, a mesma comida. E então, no dia que eu enjoar, vai para o lixo e não volta mais. Não sei, é meu jeito, sempre foi assim. Apesar de achar legal essa coisa de geladeira sempre cheia, comigo as coisas sempre estragam, entende? Essa coisa de comprar muita verdura que apodrece, uma por uma, dia após dia... não dá. E, com a geladeira vazia há um tempão, não é qualquer espinafre que me satisfaça. Problema é só que aos 30 a gente sempre acha que alimento bom é aquele mais caro e mais raro. E, veja bem... está justo na geladeira da vizinha!

Tem gente que concorda comigo que essa coisa de ruminar a mesma comida por anos é cool. Mas um belo dia vai lá e cospe e, não contente com isso, cata pra mastigar mais um pouco. Com um aperitivo aqui e ali, na tentativa de dar mais sabor àquele velho bolo alimentar tão conhecido e já tão sem gosto. Problema é que mastigar vicia e por isso é tão difícil desapegar. Uma pimentinha aqui, uma beterraba ali. Mas o foco principal é sempre aquele velho alimento tão conhecido e tão cheio de obsessão. E quase todo mundo que eu conheço tem uma geladeira assim.

Tem gente que sempre teve a geladeira cheia e daí, puf. De uma hora pra outra, resolve comer só quiabo. Anos ininterruptos de quiabo, daqueles que babam bastante. Quiabo frito, quiabo cozido, quiabo assado, suco de quiabo. E então, um belo dia não resiste e desenterra aquela lasanha mumificada da geladeira. Pronta para saborear cada pedacinho. Mas a lasanha parece não descongelar nunca e então, olha para o lado e vê uma coxinha de frango. Olha para o outro e vê o chuchu. No outro, um pão de mel, um risoto. Todos na geladeira há anos, congeladinhos. E então lá vai a pessoa e descongela, um por um, e experimenta cada um pra ver se continuam com o mesmo gosto. Claro, porque o tempo estraga alguns sabores, mas potencializa outros. E aí que, passando pela feira, acha de repente um alimento novo: um belo brócolis romeno. Que é saboreado como iguaria e que vai para a geladeira também, claro. Para futuros momentos de saudade de toda aquela geladeira cheia de fartura.

Há também quem não tenha tanta fartura assim na geladeira, mas só itens básicos. Arroz, feijão, bife, batata frita e salada. E repete o mesmo cardápio com todos os itens, todos os dias, por anos seguidos. À primeira vista parece ser algo que tende a enjoar, mas acredito bem que o negócio é cada um com a sua geladeira. Você vai lá, pede um copo d'água, abre a geladeira da amiga e dá assim uma olhada rápida, fecha e finge que não viu. Afinal, melhor um cardápio vitalício de vários itens juntos do que um picadinho, com tudo junto e misturado. Se bem que é melhor não perguntar pra amiga se ela já comeu picadinho...

Não posso esquecer daquele povo que acabou de comprar a geladeira. E que aos 20 anos a visão do mundo é diferente e a gente acha que aquela panqueca é comida dos deuses e que poderíamos viver o resto da vida à base de panqueca. Não, não é. Mas é mesmo linda essa fase de achar que no fim do arco-íris tem um prato de panqueca. E é comendo panqueca que a gente aprende a ter um paladar mais exigente (que te faz querer se jogar da ponte) aos 30.

Os homens têm geladeira só de bebida. E como vinho - que tem o sabor acentuado conforme passam os anos - é bebida de mulher, se tiver na geladeira de um homem é com a garrafa pela metade e bem escondido em alguma gaveta, longe dos olhares dos amigos. Homem gosta mesmo é de cerveja, porque é loira e deve ser bebida rapidamente senão esquenta. Muitas, muitas cervejas, cerveja é tudo o que tem sobrando e à granel. Até que fermentem seu cérebro e descubram, entre uma vodka, cachaça ou absinto, um belo dia e de uma hora pra outra, que já inventaram o whisky. Alguns se contentam com um Red Label e passam o resto da vida acreditando que não há nada melhor no mundo. Mas outros, insatisfeitos, querendo mais e sabendo que encontrarão se procurarem, percorrem um longo caminho até que encontrem seu Blue Label. E sobre esses não há muita notícia, visto que ninguém quer fazer propaganda do pote de ouro quando o encontra.

No fim das contas eu acho mesmo que geladeira é uma coisa fundamental. Seja pra comer o mesmo presunto múmia por toda a vida, seja pra armazenar alface lisa, crespa, roxa ou mimosa, assim, rapidinho e antes que estraguem. Comida leve e que acaba rápido, alface não é algo que dá pra ruminar. Mas, pasmem, tem gente que vive de luz. Geladeira é algo que não existe no vocabulário de algumas pessoas. Nem isopor na praia, nem comida fresca. Nem um suquinho de frutas. E, juro. Desenha, porque eu não consigo entender.