quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sobre Autoritarismo

Há mais de 30 anos (é, porque antes que eu nascesse, existi por 9 meses) vivo em um ambiente autoritário. Família autoritária aqui é apelido e isso sempre se estendeu a tios, primos, avós. São duas famílias com suas diferenças, mas todos (eu disse todos, sem exceção) são autoritários. Cada um conseguindo o que quer, do jeito que quer, no momento que quer. Quase todos são líderes nos lugares em que habitam não importando muito a profissão ou o meio como vivem. Eu, desde muito pequena, aprendi meio que na marra que é mais fácil conseguir o que se quer quando se é autoritário do que quando se é submisso. E eu não digo autoritarismo no sentido de 'mandar' não. Digo no sentido de envolver a presa. Traçar o objetivo e caminhar para consegui-lo. Aqui, uns são mais ansiosos e caminham fazendo barulho, quase correndo. E talvez eu faça parte desse bando. Mas, quem vai com muita sede ao pote acaba desperdiçando mel e eu sigo um eterno aprendizado de caminhar devagar como uma raposa atrás de galinhas. Proeza dos mais experientes, dos mais espertos, dos mais astutos. Que conseguem, com uma aparente conversa mole, serem lobos e convencerem seus porquinhos a deitar na assadeira com a maçã na boca de livre e espontânea vontade.

Eu digo autoritarismo porque para se viver, a convivência social é necessária. É, porque se não fosse, certamente metade de nós a dispensaríamos. Mas precisamos de outras pessoas a todo momento e para tudo. E aí a humanidade se divide simplesmente em quem come e quem é comido. E deve ser assim desde que o mundo é mundo e quem aqui sai dizendo que os direitos são iguais e que as pessoas tratam e são tratadas da mesma forma, filhinho... você é um tremendo hipócrita.

Admiro quem é autoritário sem ser estúpido. Quem sabe, com a sutileza de argumentos ou gestos, conseguir ser ouvido, conseguir ser respeitado. Eu acho mesmo que aquela coisa de bonzinho só se fode é a mais pura verdade e quando encontro com um já penso que curte ser capacho. Sinto muito, sabe? É algo que pra mim vem de berço essa coisa de impor limites. Impor regras. Separar pessoas. As pessoas que me conhecem bastante sabem que há a distância certa, o assunto certo e o dia certo pra falar comigo, e as que não me conhecem conseguem dar alguns passos para trás de acordo com o meu olhar. Eu gosto, sabe? Gosto de ser assim. Gosto que seja claro o que eu penso. Gosto do meu ar ameaçador. E, apesar de achar que toda a minha família é um tremendo porre (porque aqui dentro ninguém abaixa a cabeça pra ninguém) eu gosto bem de pertencer a esse povo. Gente que me faz pensar que não há obstáculo lá fora que seja maior que o que está aqui dentro. Gosto de saber que voz ativa é o nosso lema, seja matando estilo Massacre da Serra Elétrica ou estilo Jigsaw. E eu bem que prefiro muito mais ser ovo de tiranossauro rex do que de galinha.

Eu realmente espero que a humanidade boazinha me esqueça. Que os frufrus não cruzem o meu caminho, que os seres que babam mantenham a distância. Pessoa boazinha é mesmo um amor, mas não te leva a lugar nenhum. Mas pessoas com ar de superioridade disfarçada de bondade me encantam. Humildade com ar sarcástico. Gato que se veste de rato e vai brincar de quem mexeu no meu queijo. Gente inteligente, gente difícil, gente complexa, gente que me faz pensar. Me faz querer desvendar. Gente mais esperta que eu e que faz com que eu queira ser igual. É desse tipo de gente que eu gosto de me aproximar, é esse o tipo de gente que me cerca. Gente que se eu me distrair, me abocanha. E é exatamente com esses que eu gosto de brincar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre tendência a padrões

Era mesmo a sensação do momento e eu, pra variar, não tava sabendo de onde vinha tanto vuco-vuco. Até a tia comprar todas as temporadas de Sex and the City e me mandar sentar junto pra ver. E então que o negócio é viciantezinho mesmo, sabe? Mas com um porém: só se você for uma mulher solteira e sem filhos que está ou entrará em breve na casa dos 30. Tipo assim, eu.

Tudo bem que eu resolvi dedicar às donzelas de 30 um post desse meu blog supimpa e com frequência exigente só depois que, domingo passado, tarde preguiçosa, eu sentadinha no sofá até que, de repente... sr. charmosérrimo Jon Bon Jovi resolveu fazer participaçãozinha especial no seriado. Oi? Preciso dizer que nem é necessário assistir tudo até a última temporada pra concluir que este será sem dúvida o melhor episódio FOREVER na minha opinião?

Acontece que o gostosão de olhos azuis, covinhas e com a voz mais sexy de todos os tempos chegou lá no episódio sobre tendência a padrões, algo que anda ocupando o meu cérebro bem mais que a meia hora do episódio em questão. Seguinte: Carrie, a protagonista, um belo dia se vê em uma psicóloga reclamando de seus relacionamentos, quando ouve que o problema em comum de todos os homens que tinham defeitos era ela. Ou seja, tendência em escolher homens sempre com a mesma característica, portanto todos errados. Sei que o episódio termina com Carrie e o maior tchutchuco de todos os tempos na cama (safadona!) perguntando qual era o problema dele - porque tinham se conhecido na sala de espera da psicóloga - e quando ele responde 'perco o interesse por todas as mulheres quando vou para a cama com elas', ela percebe que errou mais uma vez. Porque o problema dela era justamente 'escolher os mesmos homens errados, sempre'.





Percebeu o vazio em que se encontra o meu ser? Daí, como boa mulher de quase 30 que pensa demais, cheguei à conclusão que o problema é esse. O foco em homens do mesmo tipo. E que, quanto mais eu foco, mais os céus me mandam o oposto do que eu quero. E aí, sério: alguém lá em cima deve se divertir MUITO às minhas custas. Me sinto tipo um stand-up comedy diário.

Decidi: vou fingir que desfoquei. Vou fingir me interessar por todos os negros, baixinhos, gordinhos, banguelas, bafentos, que coçam o saco desesperadamente em público, que não lavam o cabelo, que cheiram a azedo, que deixam a barba crescer e tomam vitamina de abacate. Os ruins de pegada, os xoxos, os que babam, os que pisam no meu pé e os que não sabem quanto é dois mais dois. Os evangélicos, os rastafaris ou que curtem metal. Afinal nenhum deles toma banho mesmo. Os estúpidos, os que se acham com o rei na barriga, os que têm fetiches estranhos, os que não fecham a porta do banheiro, os que coam o café com papel higiênico. Os que usam camisinha tamanho teen ou os jegues tamanho 55. Os que depilam as costas com gilette, os que dizem 'ulalá' ha hora H. Os grudentos, os que te levam para o concerto, que te fazem assistir campeonato de bicicleta ou corrida. Os que fogem para Nárnia, os que têm caspa ou cera aparente no ouvido. Que enfia o dedo no nariz e dão a mão pra você. Pizza embaixo do braço. Desodorante vencido com perfume por cima. Os que peidam na sua cara. Os que dançam com a bunda empinada. Os que têm sotaque nordestino e cabeça chata. Os carecas. Os narigudos. Os que dão palpite em modelo de vestido. Os velhos pelancudos. Os que comem com a boca aberta e fazem barulho. Os surdos, os gagos, os mancos, os caolhos, os manetas, os fanhos. Os que gostam de pagode. Os que acham que estudar e trabalhar não vale a pena. Os mentirosos. Os espinhentos. Os que fedem. Os que têm cabelo de ermelino. Os que fazem sociologia ou ciências políticas. Os que gostam de Bon Jovi. Os que têm amigos gays. Os que fazem as unhas. Os neuróticos. Os que escrevem ou falam errado. Ou os dois. Os egocêntricos. Os big heads. Os reis da cocada preta, os metidos a sabichões.

É, eu vou só fingir. Fingir para os céus. Fingir rapidinho antes que qualquer um deles perceba. Porque se perceberem e se quiserem retribuir o meu interesse, só que não de mandeira tão fingida como eu.... vou dar o telefone de quem disser que alguma coisinha do parágrafo anterior é preconceito. Vai, pode ficar pra você.

Homem no mundo realmente não falta. O que falta é o Meu Mr. Big.




quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Não, eu não sobrevivi.

Venho por meio deste dizer que aqui no além é lindo. Inferninho dos bons. Tem balada, tem internet, tem batida no abacaxi. Mas pra ficar bom, bom mesmo, falta só uma pessoa lá. Não tem problema não que eu vou buscá-lo, por livre e espontânea decisão de querer vir junto. E tenho dito.

Então. Tava tudo lindo, afinal a tia quis fazer primeiro. E enquanto a gente observa de fora, é tudo maravilhoso. Sei que ela ficou verde lá na parte do sombreado, mas nada mais que um aiaiaiai não resolvessem. E puf. De repente estava pronto. E de repente era eu.

Disse mesmo que agora então eu ía dar uma volta lá fora. Comprar uns sapatos, fazer uma caminhada. Hora supimpa pra caminhar. Mesmo assim, quando eu vi, estava meio pelada e deitada em uma maca. Com aquele motorzinho prestes a ser enfiado nas minhas costas.

Eu tinha decidido dizer aqui que era tudo lindo e maravilhoso, que é só um beliscãozinho e que 'meeeu, vai lá que é sensacional, nem vai doer'. Mas esse blog ainda é meu e eu ainda digo as minhas sensações sobre as coisas. O tatuador avisou que a minha era maior e que o lugar que escolhi doeria 30 vezes mais. E eu realmente achei que ele tava brincando, sério. Mas Murph tava lá segurando a minha mão, claro.

DOEU PRA CARAMBA. Muito, muito, muito mesmo. Imagine uma injeção que não acaba nunca e que segue cortando a sua pele como um cortador de isopor. Não? Estilete. Cata aí um estilete e corta a pele pra você ver como é legal. Foi assim. E então, naquelas 369 horas de sofrimento que eu estava deitada lá, só conseguia pensar que eu tive a maior idéia de jirico da minha vida. Que meodeusdocéu, onde é que eu tava com a cabeça quando decidi fazer uma tatoo?

Tinha um rádio lá que tocava algum rock, mas pra mim podia ser até Calypso que eu nem ía ouvir. Tava mais pra lá do que pra cá, pensando que mil vezes fazer depilação com cera e que de hoje em diante eu passaria a amar a esteticista com todas as minhas forças. Parto? Que parto? Onde?

Então que eu, pessoa que prefere ouvir do que falar, pedi pra tia falar sem parar na orelha do tatuador, a fim de me distrair daquela dor e barulho infernais. Ele, bonzinho, contou até sobre sua primeira vez. Falou de mãe, filha, namoradas, ex mulher biscate que cheirava cueca. E isso foi, felizmente, o que tornou a minha dor um pouco menos insuportável. Até que a agulha chegou na minha bunda. E aí, pobre mortal, não era nem estrela mais o que eu tava vendo. Já era o cometa Halley dando pirueta e estourando pipoca. E eu jogando praga em todas as futuras gerações de quem me falou que onde é gordinho dói menos. Bando de gente mal amada! Tatuagem na bunda é a coisa mais insana que alguém pode fazer nessa vida!

Foram minutos que me pareceram anos-luz. Eu, vermelha, branca de bolinhas vermelhas, branca com listrinhas vermelhas, branca com xadrezinho vermelho, só reparei que a coisa tava feia mesmo quando ele disse 'levanta, deixa eu ver'. Rá. Foi por GOD, porque eu tremia como vara verde. Coloca aí na minha lista: Renata, moça meiga, simpática, esperta, inteligente e bonita pra caramba, tremeu horrores no dia do teste de direção E no dia de fazer tatuagem.

Gelada, vermelha e meio tonta, deitei lá de novo pra continuar a sessão tortura. Mas então Fernando, o tatuador que veio dos céus (é, porque com toda a gentileza eu sofri... imagina se tivesse escolhido um bonitão mau humorado que tinha em outro estúdio?) avisou que tinha uma má notícia: eu tava inchando.

É, a tatoo era pra ser feita em uma sessão só. É, a tia já acabou a dela. É, a dela não inchou porque ela tem pele de jacaré. É, eu tenho pele de neném. E é, eu vou ter que voltar lá de novo.

Fernando até tentou continuar, mas eu insisti encarecidamente pra voltar outro dia, tamanha a dor fora do comum que estava sentindo. E então quando ele parou, desligou o motor e começou a colocar o plástico.... foi como se eu tivesse no céu. Tudo desinchou de uma hora pra outra. E eu fiquei calma.

Enfim, eu não voltaria praquela agulha ontem nem que a vaca tossisse. Marcamos outra sessão. E enquanto eu pensava que não basta morrer, tem que ser aos pouquinhos, Fernando me mandou comprar uma pomada anestésica para a próxima vez. É, porque agora ele vai pintar e sombrear. E eu já sei que agora eu vou morrer, já que essa parte é muito pior que o traço.

Enfim, quando a gente coloca os pés pra fora daquela sala de tortura chinesa, a vida e a sanidade voltam ao normal. Eu sinto uma leve dor nas costas, como se tivesse tomado sol demais. Isso, queimadura de sol. E só. E então começa a sessão 'agora também eu vou mostrar pra todo mundo'. E aí é bem legal. Tanto, que QUASE que dá pra esquecer todo o sofrimento passado. E o que eu ainda vou passar.

É, porque muito se engana quem diz que eu não terei coragem pra voltar. Até parece que agora que eu já sofri tanto o negócio vai ficar pela metade! Eu hoje já acordei pensando que 10 dias (ele marcou a minha outra sessão dia 07/11) serão uma eternidade pra quem tem faniquito de ter uma tatoo supimpamente supimpa e lindona em metade das costas.

Fotos da sessão tortura parte 1:

Psicose no preparativo.



Jogos Mortais parte 357 e meio. Na bunda.



A Volta dos Mortos Vivos. E eles ainda sorriem.



Depois do Fim do Mundo tem uma tatuagem incompleta. Tem uma tatuagem incompleta depois do fim do mundo.



Os Goonies também se tatuam. E é lindona assim que a minha tatuagem vai ficar, assim que eu for para a sessão Poltergeist parte 29 - o sombreamento contra-ataca.



PS: Desenhos personalizados, cores, sombreamentos, frufrus, imagens, paciência, historinhas pra Renatas dormirem, talento, dedicação, atenção, apoio moral e compreensão por Fernando, da Tatoo Brasil. E eu realmente não teria sobrevivido sem ele.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sobre o dia que não teve post

Então. Estou humanamente sem condições para escrever um post, por isso eu vim aqui só pra avisar que hoje não vai ter, tá? E, se você ficou curioso pra saber quando, como, onde e por quê, eu posso quebrar o seu galho e dar uma dica. Vai que você vai saber.

Adeus então, me desejem sorte, rezem aí por mim que eu garanto que SE eu sobreviver, volto pra contar. Mas, se eu não sobreviver, posso voltar também se você quiser. Você é quem sabe.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sobre Conhecer Pessoas

Conhecer pessoas é uma arte. Tem gente que a gente conhece na escola, naquela hora de fazer um comentário sobre a matéria. Tem gente que a gente conhece porque alguém apresentou. Tem gente que a gente conhece no ponto de ônibus, no banco do metrô. Tem gente que a gente conhece porque vira vizinho. Tem gente que a gente conhece porque presta algum serviço. Porteiro, padeiro, frangueiro, tatuador, cabelereira. Tem gente que a gente conhece em ambiente de trabalho e comigo fatalmente um dia viram ou amigos íntimos ou pessoas a quem devo desejar ódio mortal.

Mas viva a tecnologia, hoje a arte de conhecer pessoas tem mais uma ramificação: pela internet. Tem gente que a gente conhece primeiro via bate papo. E aí, pena, mas a frequência lá não é boa e achar alguém legal (para minhas muitas exigências) é quase como procurar agulha em palheiro. Mesmo assim, hoje as pessoas já casam com seres que conheceram na internet! Mas esse fim de semana eu pude experimentar conhecer as pessoas blogueiras. E, confesso, me surpreendi.

Quem tem um blog, na maioria das vezes escreve bem e sabe se expressar. E, completando, se a pessoa ainda lê o meu blog, me conhece sem realmente me conhecer. É estranho você conhecer alguém que sabe tanto sobre você. Que opina sobre o que você pensou no dia tal. Como assim, meu povo, que eu conheço a pessoa agora e ela sabe tanta coisa a meu respeito? E então, passado o período de minutos até que se acostume com a fisionomia da pessoa que até ontem você só conhecia pelas palavras, tudo fica muito íntimo, como se nos conhecêssemos desde sempre. Aliando esses fatos ao certo de que, quem tem um blog é inteligente, pronto. Faz-se intimidade quase que instantânea. Gostei muito da experiência, e das pessoas mais ainda!

Lilly é uma pessoa fofa como eu achei que fosse desde o início. A pessoa se perde na cidade quase tanto quanto eu, o que fez com que eu me identificasse com ela. No primeiro dia de amizade eu já a vi se sentindo couve-flor no vapor e com máscara branca no rosto, enquanto ela fazia limpeza de pele. E a pessoa foi capaz de tirar uma com a minha cara enquanto eu cortava o cabelo. E saiu viva, acreditem! Inveja da sobrancelha escura e grossa dela.

Ju Ferrer, além de nos apresentar um tatuador, nos recebeu em sua casa, nos ofereceu comida, deu copo de água geladinha e oportunidade para várias risadas, apesar de séria. Loira, alta, magra e inteligente (peraí que eu vou ali me jogar). Me surpreendeu por ser mais reservada, apesar de escrever longos textos no blog. Faz bolas de lantejoulas, toma mate com água gelada. Diferente do que eu imaginava, eu adoro me surpreender para o lado bom com as pessoas.

Gente que existe, gente que vive, gente verdadeira, sabe? Que não usa a internet pra mentir e parecer melhor do que é. Gente normal, gente feliz. Dia de meninas que eu adorei.